Manifesto Mineiro
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Aqui estou para dirigir-vos algumas palavras sobre o “DIA DA MAÇONARIA”, nesta sessão solene que lhe dedica a Assembléia Legislativa do Estado de Minas Gerais. Aqui está representada a maçonaria Mineira por suas três Obediências – Grande Oriente do Estado de Minas Gerais, Grande Loja Maçônica de Minas Gerais e Grande Oriente de Minas Gerais, em nome do qual vos fala este Grão-Mestre. A Maçonaria, como é geralmente definida, é uma Instituição iniciática, progressista, beneficente, liberal, educativa e filosófica, que tem por objetivo o aperfeiçoamento moral, espiritual, social e cultural do homem. Constituída de homens livres e de bons costumes, representativos de todos os segmentos sociais, unidos num ideal comum, tem uma história de lutas e glórias em todos os países em que se acha instalada. É regida por leis próprias, fortalecida e cimentada por princípios previamente estabelecidos. As grandes transformações sociais do mundo, desde o século XVII, contaram com a participação maçônica. Podemos, assim, lembrar a participação maçônica na independência dos Estados Unidos, em que quase todos os signatários da Declaração da Independência eram Maçons; na Revolução Francesa, como se pode ver na Declaração dos Direitos do Homem; na luta pela extinção da escravatura nos séculos XVIII e XIX; na independência das Colônias da América Espanhola; na unificação da Itália; na primeira guerra mundial; na resistência francesa, durante a segunda guerra mundial, e na luta subterrânea contra regimes totalitários. Quanto ao Brasil, vencidas as barreiras do silêncio, está plenamente reconhecida a participação dos Maçons nos grandes acontecimentos da nossa História. Jovens brasileiros, mandados à Europa para estudar, de lá trouxeram o ideal libertário para plantá-lo no coração de Minas Gerais. Aqui ele brotou e floresceu. Muitos deles dedicaram suas vidas a esse ideário e as deixaram em holocausto no altar sagrado da liberdade. A seguir, a participação maçônica se fez presente em outros grandes acontecimentos da História do Brasil, como a Revolução Pernambucana de 18l7; a Independência do Brasil em 1822, a obra máxima da Maçonaria brasileira, em que se distinguiram homens da estatura moral de José Bonifácio e Joaquim Gonçalves Ledo; a Confederação do Equador em 1824; a abdicação de Pedro I; a Regência e a maioridade de Pedro II; a Guerra dos Farrapos; a Revolução Liberal de 1842; a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República, cujo primeiro ministério era totalmente composto por maçons, tendo por chefe e primeiro presidente da República o Marechal Deodoro da Fonseca, maçom e Grão-Mestre. Na primeira República, chamada “República Velha”, os maçons brasileiros prosseguiram seus trabalhos para assegurar a estabilidade do regime com presidentes maçons, como o Marechal Floriano Peixoto, Prudente de Morais, Campos Sales, Wenceslau Braz, Nilo Peçanha e Washington Luiz. Em todos os movimentos políticos, após o término da República Velha, tais como a República Nova (1930-1937); o Estado Novo e o fechamento das Lojas Maçônicas; a Segunda Guerra Mundial; a redemocratização do país; o movimento de 1964; a abertura política; a anistia e reconstrução democrática, sempre atuou a maçonaria na defesa da liberdade e dos direitos humanos. Nessas transformações, colaboraram grandes Maçons, empenhados na elaboração e fixação da política nacional. Não sendo órgão de nenhum agrupamento político, religioso ou social, a Maçonaria se dedica ao estudo e solução de todos os problemas humanos que atormentam o homem, disseminando as idéias de paz, de justiça e fraternidade, sem distinção de raça, credo ou nacionalidade. Nossa Fraternidade congrega e reúne seus membros num mesmo ideal, ligando-os num mesmo sentimento, numa só família, sem interferência nas crenças religiosas e filiações políticas de seus membros, desde que compatíveis com os princípios maçônicos. Atualmente, no Congresso Nacional, nas Assembléias Legislativas Estaduais, nas Câmaras Municipais, nos Poderes Executivo e Judiciário, nos Estados e Municípios, está a Maçonaria representada por muitos de seus membros, participando ativamente da vida pública, trabalhando, discretamente, a serviço do bem comum e da sociedade, em consonância com os preceitos defendidos por nossa Ordem. Por seus elevados objetivos, pelos benefícios prestados à pátria e às comunidades locais pelos Maçons, no passado e no presente, a Ordem Maçônica se sente honrada e reconhecida por esta homenagem que ora lhe presta a Assembléia Legislativa do Estado de Minas Gerais, na qual está representada a maçonaria mineira por ilustres e operosos deputados, de que muito nos orgulhamos. As grandes transformações sociais operadas em nosso Estado vêm contando com a participação e apoio da Maçonaria Mineira. Nessas transformações participam grandes maçons, empenhados na elaboração e fixação do progresso em nosso Estado, na política, na administração pública e particular, no comércio, na indústria, na artes e ciências em geral. Numa decisão, eminentemente maçônica, as três Obediências mineiras firmaram, em 2002, o Pacto de União da Maçonaria Mineira, para, juntas e num esforço comum, de mãos dadas, trabalharem mais eficazmente para a realização de seus objetivos maçônicos e sociais. Sem prejuízo dos seus princípios básicos, a Maçonaria, como instituição humana, não poderia nem poderá ficar indiferente à ação política e social, atuando, porém, dentro de seus padrões éticos, consubstanciados na própria essência sociológica da política, para manter as grandes conquistas sociais da humanidade. Contra a crise política que estamos vivendo, diariamente divulgada pelos órgãos de comunicação, com repercussões desastrosas, pondo à mostra o maior sistema de corrupção já instalado no país, ferindo de morte a ética e a moral, já se erguem as vozes indignadas das nossas Lojas e Irmãos. A corrupção nasce das fragilidades institucionais e da ineficiência da gestão administrativa do país nos três poderes e nas três esferas: federal, estadual e municipal. Elas nascem da ausência de uma série de medidas legislativas, necessárias à implantação de programas de modernização administrativas da máquina pública e social. A reforma não deve ser apenas política nem apenas ética. Deverá ter um sólido embasamento moral, doutrinário, idealístico, como formação de caráter, patriotismo, sentimento de dever e humanidade. Tudo isso contêm os princípios e preceitos maçônicos, a que devem recorrer os nossos deputados maçons na elaboração das leis. Impõe-se, pois, uma tomada de posição do Grande Oriente de Minas Gerais, membro da Confederação Maçônica do Brasil – COMAB, ante tal aberração e escândalo. Todas as pessoas de bons costumes, maçons ou não, estão estarrecidas e perplexas. Quanto mais se mexe e remexe no lamaçal dos escândalos públicos e políticos, mais emergem os detritos da corrupção e imoralidade de congressistas, lobistas, administradores de empresas e intermediários de negócios escusos, envolvendo ex-secretárias, ex-mulheres, secretários e tesoureiros de partidos políticos, além de denúncias e delações premiadas e caluniosas de criminosos. Doações, destinações não comprovadas, propinas, mesadas, ou mensalões, desvios de parcelas, remessas de dinheiro para o exterior, aquisições de propriedades com recursos desviados de sua destinação, tudo isso vem sendo praticado como se fosse normal. Tudo isso constitui um rosário de crimes, de abusos, de práticas ilegais e imorais, cometidos, ora à luz do dia, ora no recôndito dos gabinetes, sob o pálio de um cargo público, político ou particular, à sombra de altos dignitários da República. Que fazer para que não ocorra a desmoralização total da atividade pública e política? O descaramento com que se praticam tais falcatruas leva-nos a terríveis reflexões. Assusta-nos o quanto tem sido fácil o exercício da corrupção administrativa e política. Em tais situações, nem disfarces há: opera-se abertamente, como se percebe claramente em depoimentos de alguns notórios corruptos e corruptores. Fica à mostra toda uma máquina viciosa, conivente, que tem permitido o mau uso e manuseio do dinheiro público. Corrupção é o desvio de normas, de leis e dos padrões de moralidade aceitos pela sociedade. É a progressiva desintegração do homem, mediante a ação de fatores internos e externos. Temos a corrupção moral, que é a depravação progressiva dos costumes. O corrupto e o corruptor não têm escrúpulos morais nem respeito aos direitos alheios. Tudo vale para realizar seus desejos insaciáveis. Já a corrupção administrativa e política é o aproveitamento sistemático do cargo público para a satisfação de interesses pessoais, comumente de natureza pecuniária. Assim, o poder invisível, com sua mão gatuna, vai apropriando-se das verbas públicas e fazendo a fortuna de maus políticos, de maus administradores, de maus empreiteiros, de maus congressistas, secretários e tesoureiros. Os depoimentos dos mentores e participantes de tais distribuições de dinheiro, se, por um lado, não surpreendem, porque já conhecidos por seu passado, por outro lado, quanto a outros até então tidos e havidos por honestos, nos deixam chocados e decepcionados. O pior de tudo são as indagações: serão punidos, seus bens ilegalmente adquiridos serão confiscados, seus depósitos em bancos serão bloqueados, seus investimentos nos chamados paraísos fiscais serão descobertos e revelados, originários da rapinagem? Exige-se, pois, ação enérgica dos órgãos públicos, dos partidos políticos, do Congresso Nacional, da Polícia e da Justiça. Que sejam extirpados da vida pública aqueles que lhe maculam a imagem, que lhes arranham a credibilidade, que agridem a Nação pela apropriação de recursos que deveriam ser utilizados para o bem público. Punir exemplarmente os culpados é exigência pela qual clama a consciência nacional. Aqui, desta tribuna, sob o pálio desta Casa Legislativa, onde militam os nobres representantes do povo mineiro, que tão grandes serviços têm prestado ao nosso Estado e à causa pública, o Grande Oriente de Minas Gerais também ergue sua voz de protesto e indignação contra a calamidade pública que assola o nosso país. Cumpre-nos despertar nos cidadãos o valor da ética social. Não nos deixemos dominar pelo comodismo, pelo desânimo, pela desesperança. Orgulhemo-nos de ser corretos e envergonhemo-nos da prática de ações condenáveis. Não sejamos cúmplices do suborno e do tráfico de influências ou de qualquer procedimento indigno. Preservemos, a todo o custo, o sistema de moralidade que nos incute a Ordem Maçônica. Este é o pensamento do Grande Oriente de Minas Gerais, suas Lojas e seus obreiros, unidos numa cruzada moral pela restauração da lisura, da probidade e da correção na vida pública e social, para que nossa Pátria emerja limpa e pura do lodaçal em que a estão lançando e possa viver a verdadeira democracia. Fechemos esta página com o Padre Antônio Vieira: “Miserável não é a República onde há delitos, senão onde falta a punição deles”. Recebam, nobres deputados, o mais caloroso e fraternal reconhecimento e a expressão da nossa estima e gratidão. Muito Obrigado!
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